Outras visões do BDSM Brasileiro

Do sadomasoquismo erótico ao BDSM 

 

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-64872013000200014

 

 

Na trilha de nossas preocupações de pesquisa nos últimos anos com processos de mudança social e convenções de gênero e sexualidade no contexto brasileiro (Facchini, 2011), nos encontramos, na passagem dos anos 1970 para os 1980, com uma rede constituída por conexões entre ativistas feministas, ativistas engajados na luta contra a ditadura militar, na luta por liberação sexual e praticantes de fetichismo, do BDSM ou de troca de casais.

A exploração dessas conexões nos levou ainda a pessoas envolvidas com produção artístico-cultural, com literatura, mas também, em alguns casos, com o mercado de bens eróticos (produção de literatura erótica, seja em livros ou revistas, e frequência a festas para troca de casais). Seguindo essas pistas de campo, chegamos a um conjunto de livros produzidos entre o final dos anos 1970 e meados da década seguinte, entre os quais trabalharemos aqui com os escritos por Glauco Mattoso e Wilma Azevedo (ambos os nomes são pseudônimos) como fios condutores para que possamos delinear conexões entre atores no contexto da abertura política.

O livro de Glauco Mattoso, Manual do Podólatra Amador, é um relato autobiográfico que incorpora referências literárias relativas ao fetiche por pés. Publicado em 1986, foi republicado com revisões em 2006, podendo ser considerado uma obra sui generis na carreira do autor, mais conhecido por sua vasta produção como poeta e por sua participação em publicações alternativas do período da abertura, como Lampião (1978-81) e O Pasquim (1982-83).

Wilma Azevedo, por sua vez, publicou seus escritos inicialmente em revistas eróticas e, depois, os compilou em livros que poderiam ser descritos como de produção de baixo custo. A escritora é pouco notada fora do meio BDSM e, diferente de Glauco Mattoso, suas obras não têm caráter literário reconhecido. Wilma é considerada precursora/difusora do chamado sadomasoquismo erótico, visto que, tendo tomado contato com praticantes que se comunicavam via classificados eróticos de jornais e revistas, passou a produzir escritos ficcionais que davam voz às fantasias e às práticas dos integrantes desse meio. Dois livros desta autora, publicados no início dos anos 1980, são aqui tematizados: A Vênus de Cetim (1986) e Tormentos Deliciosos (s/d).

Wilma e Glauco citam-se mutuamente nesses livros, assim como Henfil, que aparece no livro de Glauco como podólatra confesso e, nos de Wilma, como interlocutor e cúmplice – que escreve inclusive o prefácio e a capa posterior de um de seus livros – ao qual se refere nos seguintes termos:

Henfil – o nosso famoso cartunista, o primeiro homem público a assumir essa posição aqui no Brasil, revelando em artigos, entrevistas e palestras que os seus Fradins são os refletores de seu próprio ego, porque é um Masoquista assumido – ajudou muitos homens a se libertarem do peso de ser Masoquistas. Homens que haviam se casado com mulheres que não tinham nada a ver com as suas tendências e predileções sexuais partiram à procura de quem os satisfizesse melhor na cama e, hoje, são muito felizes. Muitos homens que passam o dia todo vestidos com a sua "capa" de Macho, por imposição do trabalho, meio ambiente e outros motivos, à noite estão morrendo de vontade de abandonar a sua máscara de mandões e machistas, para se tornar brinquedos sexuais nas mãos de mulheres inteligentes e fortes que os submetam a seus caprichos e vontades! (Azevedo, 1986:168).

O direito ao prazer e à felicidade e os ideais que colocam homens e mulheres em posição de igualdade na busca desses direitos, ainda que para tanto seja preciso lutar contra o peso da tradição, articulam o trecho acima, remetendo diretamente ao clima de fins dos anos 1970, mesmo momento de efervescência cultural e política tão bem retratado em escritos sobre o início do movimento homossexual (Fry & MacRae, 1983; MacRae, 1990). Este trecho remete, ainda, às influências da "segunda onda sexológica", que se desloca das antigas "perversões", classificação à qual se associa a condenação à busca do prazer sem o ônus da reprodução, para a sexualidade "comum", dissociada da reprodução e que tem no prazer seu próprio objetivo (Béjin, 1987; Russo et al., 2009).

Glauco contava 20 e poucos anos e Wilma tinha mais de 30 anos nesse momento. Ambos escrevem livros que se organizam em torno de um formato autobiográfico, embora o realizem de maneira distinta. Em palestra no evento anual pelo Dia Internacional do BDSM realizado pelo Clube Dominna em 2010, Wilma relatou que boa parte do que conta sobre si nesses livros é ficcional, e que teria vindo de uma família de estratos médios no interior de São Paulo, origem que protegeu nos livros, sendo que quando contava 31 anos seu marido, dez anos mais velho, sofreu um derrame e passou anos acamado. Nesse período, precisou se profissionalizar, buscar autonomia financeira, mas também passou os melhores anos de vida de uma mulher, em termos de sexo, com uma carência sexual muito grande.

Os escritos e as falas analisados de Wilma Azevedo levam a crer que sua deriva entre a profissionalização como jornalista e as redes relacionadas a entretenimento sexual possam ser tomados como um produto bem acabado de um momento em que autoconhecimentovalorização do prazer e liberação sexual se querem também assuntos de mulher. Nesse contexto, seu projeto de profissionalização e seus interesses eróticos se encontram com um conjunto disperso de sujeitos com interesse em sadomasoquismo que se comunicam via classificados e contos publicados em revistas eróticas. Do lugar de jornalista e sob pseudônimo, Wilma decide dar voz em seus textos a relatos que recebia desses sujeitos, o que acaba resultando na articulação inicial de uma rede de praticantes. Para isso, foi apoiada por um praticante já falecido, Cosam Atsidas, que ao compartilhar seus contatos e conhecimentos no universo do sadomasoquismo, colaborou para que escrevesse a respeito.

Enquanto Wilma produziu relatos com tons autobiográficos em que ficção e realidade se mesclam, no Manual do podólatra amador: aventuras & leituras de um tarado por pés, Glauco Mattoso se propõe a fazer uma autobiografia sexual. Sua narrativa nos conduz dos arredores da avenida Sapopemba (periferia da zona leste de São Paulo), nos anos 1950 e 60, para o centro de São Paulo no período da ditadura, e para Rio de Janeiro e São Paulo no período da abertura e da redemocratização. Acompanhamos relatos sobre o início da adolescência marcados por uma profusão de personagens do sexo masculino que faziam troca-troca no mato abundante no bairro, mas também tinham no menino estudioso, que usava óculos e evitava atividades físicas (como praticar esportes ou dançar) por conta do glaucoma que já se manifestava, uma vítima potencial.

Em pleno governo Médici, em meio à atmosfera da Boca do Luxo, acompanhamos seus tempos na graduação em biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política, curso que na época era frequentado por poucos homens, em geral caretas demais para serem considerados subversivos, mas também suas aventuras fazendo-se passar por calouro entre os veteranos e bichos do Mackenzie. Além dos trotes universitários, metáforas sobre relações de poder, simbolizadas pelas botas dos militares ou pelos pés sujos dos moleques do bairro, são abundantes em seu relato. O início da vida profissional leva-o para o Rio de Janeiro, onde participou em 1977 de reuniões de um grupo de estudos sobre homossexualidade e estabeleceu contato com João Silvério Trevisan, que fazia o mesmo em São Paulo. Voltando a São Paulo, envolve-se com a criação do jornal Lampião e do grupo Somos:

Foram os "saraus" homossexológicos de Marcelo e seu contato com Trevisan o que me serviu de ponte pra duas experiências decisivas: participar do jornal Lampião e do grupo Somos, respectivamente o primeiro periódico vendido em bancas e o primeiro coletivo exposto em público a levantar a bandeira da "Santa Causa", como se apelidava a vida guei, até então sem a seriedade e coragem necessárias pra sustentá-la fora dos guetos. [A atuação no Somos implicava a participação em eventos], sempre sustentando a grande tese da época: que a conscientização do homossexual passaria necessariamente pelo repúdio anarquista de toda estrutura de poder, incluindo a família, o casamento hetero, a divisão de papéis ativo & passivo, a monogamia, a fidelidade, o ciúme, o mero compromisso. [...] A "abertura" do governo Figueiredo trouxe de volta Gabeira, Herbert Daniel e outros teóricos da "política do corpo", mas quando eles chegaram, nós já tínhamos reservado nosso camarote ao lado das demais "minorias" (negros, mulheres, índios) que bagunçavam o Coreto dos esquemas simplistas [...], até então vigentes na cabeça e no discurso dos intelectuais engajados, que só pensavam em "luta maior", isto é, tomar o poder (Mattoso, 2006:134).

Mas as identidades de escritor e de homossexual não eram as únicas para Glauco. Ao falar da experiência no Somos, remete à podolatria que aparece como especificidade:

encontrei o reforço de identidade que necessitava pra não me julgar tão excêntrico. Se entre os heteros um guei já não era tão "anormal", entre os gueis um podólatra não podia ser tão "específico”. [...] Aliás, corroborei essa convicção quando fui ver de perto, em 80, as grandes matrizes mundiais do way-of-life guei: Nova York e San Francisco. Lá constatei não haver "especificidade" que não tenha seu mercado de consumo & sua filosofia de vida; e de lá trouxe uma batelada de livros & revistas sobre S & M, podolatria inclusa (Mattoso, 2006:150).

Esse mesmo movimento em busca de referências internacionais está presente em Cosam Atsidas, que aparece como personagem do livro A vênus de cetim,5 de Wilma Azevedo, e que teria criado a Associação Brasileira de Sadomasoquismo (ABS) num momento anterior a 1986. O próprio Glauco relata que conheceu o Foot Fraternity, grupo de podólatras de Ohio, e pensou em criar um Clube do Chulé ou um Podólatras Anônimos, mas nunca teve tempo ou estrutura para fazê-lo:

Cheguei até a bolar estatutos & regulamentos, mas deixei a ideia de lado por falta de tempo, grana e infra. Minha parca visão tava canalizada pra diversas atividades intelectuais, entre elas a colaboração em suplementos literários e magazines musicais. Mesmo assim, dei o pontapé inicial pra muitos podólatras que acabaram criando páginas na Internet, entre as centenas que hoje se acham, procedentes dos quatro cantos do mundo, em sites como o asiático Male Feet Links, espécie de catálogo virtual da podolatria masculina (Mattoso, 2006:218).

Nesse projeto adiado de organização comunitária, a internet tem um papel muito relevante, porém, apenas a partir de meados dos anos 1990. As trajetórias de Glauco e de Wilma, tal qual relatadas no contexto dos anos 1980, são marcadas pelo uso dos classificados de revistas eróticas por pessoas com interesses em sadomasoquismo e em fetiches. Wilma Azevedo escrevia matérias para Ele & Ela e Club e cita também as revistas Fiesta e Homem com anúncios sobre essas temáticas. Em seus artigos "revelava as delícias e as formas corretas de se fazer amor nos padrões de uma fantasia pouco explorada pelas mulheres" (Azevedo, 1986:171; grifo nosso). Como aqueles/as que se articulavam e tinham acesso a uma pedagogia6 erótica a partir dos escritos e das trocas de cartas com Wilma e seus amigos, Glauco se coloca como um usuário de correio sentimental para a busca de parceiros, indicando os fatores – crise econômica e epidemia do HIV/aids – que teriam colaborado para o fim deste tipo de comunicação.

Passado o período inicial de pânico em torno da aids como "peste gay", em meados dos anos 1990, momento em que já havia perdido totalmente a visão, é a internet que ocupa o lugar das caixas postais para Glauco. Ao que parece, boa parte dos praticantes mais velhos fez esse tipo de migração dos classificados para a internet.

Entrevistas e conversas em campo na segunda metade dos anos 2000 indicavam o uso do MIRC, de salas de bate-papo de fetiche no portal Terra e de sadomasoquismo no portal UOL, o que se intensifica com o desenvolvimento de programas de trocas de mensagem instantâneas e listas de discussão por email. Depois, em meados dos anos 2000, surgem comunidades em redes sociais, como o Orkut. Na passagem para a década de 2010, praticantes brasileiros começam a frequentar redes sociais para kinks e fetichistas, como é o caso do Fetlife. Mais recentemente, uma rede social brasileira voltada para BDSM foi criada, com acesso apenas a convidados. Outra forma importante de comunicação pela internet são os blogs, um vasto conjunto a partir do qual se tem feito pouca pesquisa. Há, ainda, todo um universo relacionado com práticas sexuais mediadas por computadores, que ganham nova configuração com a criação de "mundos virtuais", como é o caso do Second Life, onde o BDSM também tem lugar.7

No início dos anos 2000 já havia muitos blogs e sites voltados para BDSM, com divulgação de locais de encontro, manuais, indicações do que é ou não seguro fazer, discussão da filosofia que acompanha as práticas, relatos eróticos e fotos. Mas a interação online não se esgota em si mesma, dando margem à interação off-line entre praticantes e também à formação de grupos: o site Desejo Secreto,8 estudado por Bruno Zilli (2007), é um exemplo, visto que começou as atividades a partir de pessoas que se conheceram nos canais do MIRC, dando origem a uma lista de discussão de internet, uma comunidade no Orkut e até a publicação de livros, como é o caso do Sem Mistério: uma abordagem (na) prática de bondage, dominação, sadismo e masoquismo, publicação assinada por um praticante cujo nickname é Edgeh, cujo estilo se aproxima da linha dos manuais propriamente ditos,9 lançado em 2002 pela Cia. do Desejo.

No período em que se desenvolvem essas formas de contato via internet, já havia grupos presenciais se reunindo em São Paulo. A monografia de Jorge Leite Júnior (2000) remete às atividades de um desses grupos, o SoMos, criado em 1992, cujo objetivo era propiciar espaço de sociabilidade, troca de experiências, aprimoramento de práticas e conhecimentos, possibilitando a prática do SM, de modo a minimizar riscos tidos como inerentes a este tipo de prática. Entre as atividades do SoMos estavam dias de estudo, debates e workshops. Esse grupo se reuniu em espaços públicos, como barzinhos e restaurantes em bairros de classe média paulistanos, até o final dos anos 1990, quando surge o primeiro espaço específico, o bar Valhala: casa no estilo barzinho, sem placa de identificação como tal, com um salão em separado – um dungeon – equipado para a prática de SM, que funcionou ligado ao grupo SoMos até 2002 (Facchini, 2008). A ideia que animava o SoMos era a de possibilitar a prática do sadomasoquismo, minimizando riscos tidos como inerentes a ela:

Se você tem fantasias, não [pode] botar os pés pelas mãos, sair por aí fazendo qualquer coisa. Tem de ver o que pode ser feito e o que não pode ser feito. [...] Você tem que ter todos os cuidados, ou até mais, porque a sua integridade física está em jogo, sua integridade psicológica está em jogo. Saber o que você tem de fazer com o poder, ter o controle total da situação, até para não extrapolar o limite do outro. Porque o outro pode não ter limite também. E ele quer mais e mais, e você tem que ter o sinal para não chegar numa lesão, não chegar numa coisa mais séria.10

Após isso, surge o Clube Dominna, que funcionou em local próprio entre 2004 e 2010 e segue desde então com atividades de periodicidade variada. Nenhuma das versões do Dominna, ou mesmo o Valhala, tinha qualquer identificação na entrada. Eram casas, como quaisquer outras, nas quais um porão, garagem ou edícula eram adaptados para receber um dungeon que, em qualquer das casas em que os clubes se instalaram, era considerado o lugar mais nobre. No final dos anos 2000 surgem outros espaços em São Paulo, como o Libens, que funcionou entre 2008-2009; o projeto Luxúria, que organiza festas fetichistas há cerca de seis anos na cidade, e a Dungeon/Porão, festa que acontece com periodicidade quinzenal e, posteriormente, mensal desde 2012.11 Além disso, há grupos que se articulam via internet e se reúnem em bares ou espaços privados para sociabilidade ou prática.

Ainda que a ênfase em oferecer workshops de práticas não esteja tão presente nas iniciativas mais recentes, a "pedagogia" acerca do que seria ou não seguro fazer e dos cuidados a tomar a fim de se evitarem lesões físicas, qualquer forma de desconforto emocional ou riscos decorrentes das práticas se estende via internet, em redes sociais ou blogs, e é assunto constante de conversas presenciais. Trocas de experiências com instrumentos e práticas e sobre limites ocupam boa parte do tempo da convivência no meio.

A articulação entre momentos online e off-line de sociabilidade (Parreiras, 2008) no meio continua sendo muito importante, de modo que ambas as modalidades se alimentam e se influenciam mutuamente. Com relação a essa articulação, um ponto relevante diz respeito à popularização da internet e ao que se pode observar em espaços de interação presencial de adeptos nos últimos anos: não se trata apenas da popularização (no sentido de não serem mais espaços frequentados majoritariamente por pessoas de estratos altos e médios como no início da década de 2000), mas também do crescimento do número de pessoas que frequenta espaços presenciais de encontro ou comunidades online.

Quanto à adoção do acrônimo BDSM pela comunidade no Brasil, o que sabemos ainda é pouco, mas tudo indica que tenha se dado na primeira metade dos anos 2000 e que não tenha substituído totalmente o uso da categoria sadomasoquismo. Em meados dessa década, praticantes ligados ao site Desejo Secreto a utilizavam, assim como a categoria BDSMista, para se referirem aos adeptos. No Clube Dominna falava-se em BDSM, mas também eventualmente em SM: apesar de ser responsável pela organização das comemorações anuais pelo Dia Internacional do BDSM desde 2004, Mistress Bela, que também moderava uma lista chamada BDSM SP, num diálogo com Glauco Mattoso no evento de 2010, relatava que faz questão de usar a palavra sadomasoquismo sempre que possível – porque o pessoal fala BDSM, mas fala escondidinho. Não, tem que falar: 'Sou sadomasoquista' – e que pessoalmente desconhecia o preconceito da sociedade de que todo mundo fala. Em meados dos anos 2000, outros adeptos, como Barbara Reine, uma das articuladoras do SoMos, faziam uma distinção entre SM e BDSM, atribuindo à primeira categoria um caráter mais tradicional por oposição à diversificação e mesmo uma certa mistura excessiva da segunda, que compreenderia um rol maior de práticas, mas cujos adeptos nem sempre seguiam os padrões da liturgia e dos rituais prezados por muitos praticantes do SM.

Em 1998, Wilma Azevedo ainda se referia a SME (sadomasoquismo erótico) em seu livro Sadomasoquismo sem medo. A distinção entre erótico e patológico se mantém presente de alguma forma em toda a produção de classificações mobilizada no meio. Mais recentemente, as categorias fetichista e kink vêm sendo mobilizadas nessa mesma direção. Se Glauco Mattoso já falava bastante em fetiche no seu Manual do Podólatra Amador, em diálogo crítico com os que chamou de maníacos das taxonomias patológicas, o termo reaparece no meio a partir das salas de bate-papo do portal Terra e de festas como a Fetiche do Rio de Janeiro12 e a Luxúria em São Paulo.13 O uso da categoria kink (relativo a sexualidades não convencionais, em oposição ao termo straight) parece se difundir no meio BDSM paulistano com a adesão de praticantes a uma rede social internacional de fetichistas, o Fetlife, desde o final dos anos 2000.

A diversidade classificatória na comunidade é muito grande e, com a popularização da internet e a diversificação dos espaços de sociabilidade online e off-line, tem se modificado com uma velocidade que custa ser acompanhada. Em meio a um sistema classificatório tão complexo, por vezes é difícil inclusive nomear o objeto de uma pesquisa a fim de poder dizer algo a seu respeito. Ao finalizar um período de pesquisa junto a grupos de praticantes, Facchini (2008) optou pelo uso da categoria BDSM, ou de sua variante na ideia de BDSM erótico, para falar das redes de praticantes que conhecera a partir das atividades do SoMos, do Dominna e de listas de discussão, sites e redes sociais na internet.

Nesse contexto, a autora afirmava que o BDSM com que teve contato em São Paulo de fato toma por base a experiência de grupos BDSM norte-americanos e europeus, e invoca o confronto político em relação à patologização, à estigmatização social e a possíveis constrangimentos legais à fruição erótica ligada ao BDSM. O vocabulário, as práticas e os instrumentos usados no meio e nas cenas também são bastante influenciados não só pela literatura erótica, como pelos manuais de BDSM (muitos deles traduzidos) em sites de internet. Assim como no movimento LGBT, as viagens e os contatos internacionais dos primeiros integrantes da comunidade parecem ter sido cruciais para o desenvolvimento do meio BDSM no Brasil. Aqui, no entanto, a organização em comunidade e a divulgação do SSC (são, seguro e consensual), como base para o exercício de práticas, não se dão num contexto de embates políticos, tais como os descritos por Gayle Rubin (Rubin, 1984; Rubin & Butler, 2003), tomando o contexto norte-americano das sex wars, entre a segunda metade dos anos 1970 e os 80.

O atual conservadorismo político brasileiro, embora guarde pontos de conexão com as sex wars norte-americanas, tem se expressado pela via de um "fundamentalismo religioso" muito mais preocupado com questões como "direitos dos homossexuais", pesquisas com células de embriões e aborto. No Brasil, o BDSM não está também inserido na agenda política dos "direitos sexuais", nem conta com legislação ou jurisprudência formada, a partir de casos que tenham ganhado maior visibilidade social. Não está, também, no campo de interesses do movimento feminista. O diálogo se dá entre comunidades organizadas fora do Brasil e pessoas que desejam maximizar prazer e reduzir riscos e que têm se constituído em comunidade, aqui, desde pelo menos meados dos anos 1980. O principal elo entre elas parece ser a (des)identificação com o discurso psiquiátrico sobre perversões e parafilias e o desejo de criar alternativas que permitam a prática do BDSM.

comunidade é "imaginada" – no sentido que Anderson (1991) confere ao termo – como rede social de suporte individual, troca de conhecimentos e administração coletiva de riscos tidos como implicados nas práticas. Se a tríade SSC (são, seguro e consensual) representa um ideal em torno do qual se estruturam práticas, é preciso ressaltar que a consensualidade, como fundamento, aparece intimamente associada aos controles comunitários. Por controles comunitários deve-se entender uma constante vigilância mútua na busca de identificar, conter, isolar e, por consequência, expulsar sujeitos cujas condutas possam prejudicar outros adeptos ou a comunidade. É certo que, como procuramos detalhar mais adiante, isso não deixa de propiciar um campo fértil para conflitos, fazendo com que a comunidade se estruture num equilíbrio tênue entre vaidadesfofocas, posições isolacionistas, debates de concepções, solidariedade e busca de respeito.

De modo mais geral, o acrônimo BDSM refere-se a um conjunto de práticas de conteúdo erótico, sendo também definido por oposição ao termo baunilha (usado para indicar o sexo convencional, pessoas que não estão envolvidas em BDSM, ou a vida dos adeptos para além do contexto das práticas). Outra distinção relevante, no entanto, é a que se constitui em relação a categorias como perverso ou parafílico, oriundas do campo científico, em especial da psiquiatria, da psicologia, da psicanálise e da sexologia.

É preciso ressaltar a existência de toda uma aura de segredo e mistério resultante do fato de o meio ser relativamente restrito a praticantes e seus convidados. Essa aura se mistura a convenções, que são socialmente disseminadas, acerca de riscos inerentes a essas práticas. É também, certamente, constitutiva do que anima os praticantes e a própria comunidade, mas tem inegáveis efeitos no que diz respeito à estigmatização das práticas e dos sujeitos, com consequências potencialmente bastante danosas para os adeptos, especialmente para aqueles que possuem inserções familiares e profissionais difíceis de compatibilizar com as práticas eróticas que adotam. Nessa direção há importantes comparações que poderiam ser feitas em relação ao armário no que diz respeito a homossexuais (Sedgwick, 2007), à "vida dupla" das crossdressers, que vivem como sapos que carregam em si princesas (Vencato, 2009), e a vários sujeitos e comunidades organizadas em torno de práticas sexuais pouco convencionais ou que deslocam convenções de gênero. Mas há também especificidades, das quais procuramos tratar no próximo tópico.